Sábado, 22 de janeiro de 2022

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Soltos, com pó!

Soltos, como pó!

Como operário eu era gente, era alguém.
Não vivia ao vento
Já não era só eu, estava feliz.
Tinha raízes, não era pó.
Estava na fabrica, de macacão, crachá e com esperanças no peito.

Mas a crise… a reestruturação… os setores que fecharam,
as funções que desaparecem, os colegas demitidos.
Outras terras, nossa sina,
novas lágrimas, outras esquinas.
Tempos de desagregação e desatinos.

No recomeçar da empresa, nossos sonhos incompreendidos.
E dia após dia, a produção foi comendo nossas vidas.
As máquinas, moendo nossos sonhos.
A competição, transformando-nos em inimigos.

No silencio competitivo, somos humilhados, desqualificados.
No recomeçar da vida, a radio peão anuncia que um adoeceu,
o outro morreu e mais um, desapareceu.

Meu peito, de tanto sofrimento é um laço, um nó.
Estamos perdidos, lançados ao vento, num redemoinho de areia.
Somos muitos, cada vez mais, sem raízes. Soltos. Como pó.

 

Julio Tavares

O uso deste material é livre, contanto que seja respeitado o texto original e citada a fonte: www.assediomoral.org