Segunda-feira, 05 de dezembro de 2022

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Eu te perdôo, vida

Eu te perdoo, vida

Eu te perdôo, Vida, pela tua estranha beleza!
– as noites frias que gelaram
a carne tenra dos órfãos pequeninos,
os ventos ríspidos que fustigaram
a choupana dos velhos e dos enfermos,
as tempestades em que naufragaram
nos barcos leves dos pescadores, nos mares ermos…

Perdôo a insânia com que distribuis
– esbanjadora às vezes, outras vezes avara –
as tuas moedas e os teus códigos,
a injustiça que acusa a inocência indefesa,
a insônia das mães que têm filhos pródigos,
a angústia irremediável que pesa sobre o destino dos poetas.

E mais te perdoara,
Vida, pela tua misteriosa beleza!

Perdôo-te em nome dos mais infelizes,
daqueles que não tiveram missão a cumprir,
dos que se deixaram arrastar pela correnteza,
dos que só conheceram o mundo obscuro das raízes.

Perdôo-te em nome de todos os homens, em nome
Dos que já não existem e dos que estão no porvir,
Porque há sempre na vida de cada homem
Um dia de loucura em que és perdoada,
Vida, pela tua perturbadora beleza!

Perdôo-te pela poesia de uma noite enluarada
Em que houve beijos e juramentos eternos
Sob o arvoredo enflorescido
– desconhecido por ser mais belo do que tu,
Vida, de enigmática beleza!

Eu te perdôo por ti mesma, Vida,
Pela tua beleza ardente e inviolável de esfinge!

 

Henriqueta Lisboa

O uso deste material é livre, contanto que seja respeitado o texto original e citada a fonte: www.assediomoral.org